5# ARTES E ESPETCULOS 7.1.15

     5#1 MSICA  PIPOCA BAIANA
     5#2 CINEMA  SANGUE, SUOR E RITMO
     5#3 LIVROS  RUNA IDEOLGICA
     5#4 VEJA RECOMENDA
     5#5 OS LIVROS MAIS VENDIDOS
     5#6 ROBERTO POMPEU DE TOLEDO  FELIZ ANO NOVO

5#1 MSICA  PIPOCA BAIANA
Suplantada no mercado por gneros como o sertanejo, a ax music completa trinta anos sem o vigor que j teve em dcadas passadas. Mas ainda consegue fazer o pas danar.
SRGIO MARTINS

     " da Bahia, o que est fazendo aqui?", perguntou Chacrinha ao produtor musical Roberto Santanna, que tinha ido visit-lo no Rio de Janeiro. Santanna explicou que estava lanando um artista e queria uma fora do apresentador. O tal novato (pelo menos para o mercado fonogrfico: era um veterano de bailes e trios eltricos) chamava-se Luiz Caldas, que havia lanado, naquele ano de 1985, uma cano chamada Fricote. Chacrinha ouviu a msica e ficou curioso por saber o que Caldas queria dizer com o verso "Quando passa na Baixa do Tubo". "Ele no sabia que 
     
     
     era uma localidade de Salvador. Ento, eu inventei que Baixa do Tubo era uma parte da anatomia feminina", diz Santanna. Chacrinha adorou. No sbado seguinte, em seu programa, anunciou que o "rei da Bahia" iria cantar. O momento em que Luiz Caldas surgiu no palco, de ps descalos e brinco de pena (que tempos mais tarde, em um show na Bahia, seria dolorosamente arrancado por uma f enlouquecida), com uma curiosa coreografia na qual danava agachado, foi o marco zero de um movimento que se tornaria hegemnico no showbiz nacional. Para Caldas, Fricote era um deboche, gnero sacolejante tambm representado por Merengue Deboche, cano gravada por Sarajane, outra pioneira do pop baiano. Mas hoje a cano  tida como o primeiro sucesso da ax music. Outra msica,  verdade, disputa o ttulo:  d'Oxum, do cantor Gernimo, foi lanada no mesmo perodo, mas no tinha o clima festeiro do hit de Caldas. Em novembro de 2014, Carlinhos Brown, que foi percussionista da banda do "rei da Bahia", lanou Por Causa de Voc, homenagem a Caldas e ao ax  que, neste Carnaval, comemora o aniversrio de trinta anos. Mais do que um hino de celebrao,  uma ajuda luxuosa de um de seus expoentes mais ilustres. "A ax music no  um movimento da Bahia, mas sim um movimento do Brasil", apregoa o sempre entusistico Brown. 
     No, a ax music no chega aos trinta com a vitalidade de outrora. H tempos que seus representantes no frequentam as listas dos mais vendidos do pas. A hegemonia das paradas de sucesso foi perdida, sobretudo, para os sertanejos. Segundo relatrio da Crowley Broadcast Analysis do Brasil, empresa que afere a audincia das rdios, a ax music no ficou nem entre as setenta canes mais executadas de 2014. Mesmo em Salvador, o bero do gnero, houve uma queda de brao entre o ax e o sertanejo  com uma pequena vantagem para os novos caipiras: das dez canes mais executadas, apenas quatro eram de baianos (ainda que as duas primeiras colocaes tenham ficado com as nativas Ivete Sangalo e Banda Cheiro de Amor). Entre msicos, radialistas e empresrios do ramo, a previso  que o Carnaval em Salvador v enfrentar uma debandada de patrocinadores. "No foi o ax que cansou, mas sim o modelo de Carnaval", diz Ricardo Chaves, lendrio puxador de trio  e que hoje integra o Alavont, grupo que agrega veteranos do pop baiano. "O problema  que muitos axezeiros se esqueceram do pblico que segue o trio para reverenciar os convidados que ficam nos camarotes." Saulo Fernandes, ex-vocalista da Banda Eva, tambm teme que o movimento tenha perdido o rumo  embora seja um defensor ferrenho do ax: "O gnero no morreu. O que morreu foi o sistema comercial ax music". Saulo tem ido de encontro a certas prticas mercantilistas do sacolejo baiano. Faz, por exemplo, shows para o pblico da pipoca  os folies que, sem dinheiro para bancar um abad (a camiseta que d direito a seguir um bloco, cujo preo pode chegar a at 900 reais), pulam na rua,  margem dos trios. A inquietude de Saulo se estende para a diversidade musical: ele fez uma cano em parceria com o cantor africano Ray Lema e um de seus shows vai homenagear o trio vocal Os Tincos, pioneiros na mistura do soul americano com a msica afrobaiana. "Hoje as cantoras querem ser Britney Spears e os msicos do bloco afro querem ser Jay-Z. Eu fico satisfeito se for Luiz Caldas", brinca. 
     A ax music  mais um movimento do que um gnero. O rtulo foi criado em 1987, dois anos depois de Fricote, pelo jornalista baiano Hagamenon Brito  e tinha inteno satrica. "Para as pessoas da minha gerao, ax era sinnimo de coisa brega. E o music ironizava a pretenso de dominao musical internacional", explica. O ax, no entanto, ganhou de fato o cenrio internacional: o bloco Olodum gravou com Paul Simon e Michael Jackson; Daniela Mercury  ainda um nome forte na Europa; e Cadinhos Brown ganhou um Grammy e concorreu ao Oscar de melhor cano por um tema da animao Rio. Musicalmente, a ax music agrega de tudo: ritmos do Caribe, tambores dos blocos afros, pagode da regio do Recncavo, msica pop e o que mais surgir. "Ax music  um liquidificador em que cada fruta  um ritmo. Se voc fizer uma boa mistura, vai sair um suco legal. Se usar os ingredientes errados, porm, poder ficar intragvel", professa Luiz Caldas. 
     O trio eltrico foi um grande veculo da popularizao do ax. Criado em 1950 pela dupla Dod e Osmar Macedo, comeou com um repertrio instrumental, composto de frevos e galopes. Em 1975, Moraes Moreira torna-se o primeiro cantor de trio eltrico. Caldas, por seu turno, jacta-se de ter institudo a anarquia: "Comigo, o trio passou a tocar de tudo". Surgidos, respectivamente, em 1974 e 1979, os blocos afros Il Aiy e Olodum so antecessores importantes da mistura que se tornou a ax music. Era comum que os cantantes do emergente pop baiano regravassem temas do repertrio desses blocos em seus discos de carreira. Criador do samba-reggae, o Olodum tambm formou cantores que tiveram uma boa trajetria no pop baiano, como Jauperi e Pierre Onassis  hoje convertido em um inusitado cantor de ax religioso. Evanglico desde 2007, ele no largou o batuque, mas evita a malcia tpica da msica carnavalesca: "Se tiver de cantar meus antigos sucessos, mudo a letra. 'Requebra, requebra, requebra' virou 'Dou glria, dou glria, dou glria'". 
     Gernimo Santana Duarte, ou simplesmente Gernimo, foi igualmente importante para a implantao da ax music no mercado. Formado em composio e regncia pela Universidade Federal da Bahia, ele traz em suas criaes tanto uma pesquisa sria da msica africana quanto ritmos importados do Caribe.  d'Oxum, sucesso feito em parceria com Vev Calazans, virou um Standard da msica baiana, tendo sido gravado por Gal Costa e Elba Ramalho. H onze anos Gernimo faz apresentaes gratuitas na escadaria do Passo da Igreja do Santssimo Sacramento, que serviu de cenrio para o filme O Pagador de Promessas. Em dezembro, ele usou o local para a gravao de um DVD, em que faz uma simbiose de canes de razes africanas com arranjos de msica erudita  para tal, balizou seus acompanhantes de Orquestra Afrosinfnica. 
     O sucesso nacional do ax consolidou-se, de fato, com Daniela Mercury, cantora que, no incio dos anos 1990, abriu os olhos das gravadoras para a msica baiana. "Ela chegou feito um trator", reconhece Sarajane, aquela do Merengue Deboche e do hit A Roda. Daniela no foi apenas um fenmeno mercadolgico: tambm serviu de modelo para as cantantes baianas das geraes seguintes  seja no comportamento vibrante no palco, seja no ecletismo do repertrio. "Ela  a principal referncia feminina para a msica baiana. Sou muito influenciada pelo cuidado esttico dela", elogia Claudia Leitte, o ltimo grande nome sado do modelo "cantora de trio eltrico" (que tem em Ivete Sangalo o maior exemplo de xito comercial). Nascida em So Gonalo, no Rio de Janeiro, e criada no centro de Salvador, Claudia acrescentou mais sabor pop ao liquidificador do ax: "Cresci assistindo aos ensaios do Olodum. Mas tambm tenho referncia do rock e do blues". Seu prximo passo  ambicioso. Ela assinou contrato com a Roc Nation, gravadora do rapper Jay-Z. No fim do ano, Claudia lanou Sinais (ou Signs, no mercado americano), o primeiro fruto dessa parceria. Enquanto isso, o Babado Novo, ex-banda de Claudia, est se reorganizando. Por um tempo, o grupo tentou substituir a vocalista por dois cantores, mas a estratgia no colou. Agora, contra-ataca com Mari Antunes. O lanamento do primeiro CD e DVD da nova formao est previsto para o incio deste ano. "O nosso som  diferente,  uma mistura de ax com arrocha", decreta Mari. E cantora de ax no precisa s de voz: Mari chama ateno pelas pernas bem torneadas  que honram, alis, sua antecessora no Babado Novo. "Todo mundo na minha famlia tem coxona", diz Mari. " gentico." 
     "Ax music  msica pop e pronto", decreta Alexandre Katenas, empresrio que nos anos 1990, ento funcionrio da gravadora PolyGram (hoje Universal), cuidou do lanamento de trs potncias do movimento  a Banda Eva (da qual saiu Ivete Sangalo), a banda Beijo (do cantor Netinho) e o grupo  o Tchan  no qual o ax se encontrou com o pagode. Nascido inicialmente com o nome de Gera Samba, o  o Tchan estourou na dcada de 90, com suas danarinas que pareciam ligadas na tomada, o carismtico cantor Beto Jamaica e o sensacional "vice-vocalista" (a expresso  dele mesmo) Compadre Washington, grande criador de cacos entre um verso e outro. "Eu esquecia as letras. Ento dizia 'ordinria' ou 'tchan!' para preencher o espao", diz. Com o esfriamento do ax, o  o Tchan ficou em suspenso por uns bons anos. Jamaica e Washington remontaram o grupo, com novas danarinas, em 2010, e hoje esto entre os shows mais disputados do vero de Salvador (em parte, graas ao sucesso de Washington num comercial de um site de vendas). "No ramos sexuais, ramos sensuais. Duplo sentido existe desde Mame Eu Quero", diz Jamaica. 
     Do Gera Samba, surgiu tambm o Companhia do Pagode, que tinha como cantor Diumbanda, nome artstico do soldado da PM Zacarias Higino de Jesus Filho  que mais tarde criou ainda outra banda, Na Bokinha da Garrafa. Diumbanda no conseguiu devotar-se s  msica e voltou ao servio policial. Cinco anos atrs, foi reconhecido por um reprter de TV quando fazia o policiamento da concentrao de um time de futebol. "Meu comandante ameaou me prender porque cantei fardado. Depois ele disse que era brincadeira e que minha apario tinha rendido convites para quatro shows", diverte-se. No desempenho carnavalesco, poucas bandas rivalizam com o Asa de guia e seu antigo lder, o cantor e guitarrista Durval Lelys (embora o Chiclete com Banana seja outro campeo). Ex-funcionrio do Banco Econmico, ele quase levou o pai ao desespero quando anunciou que largaria o emprego para tentar a carreira musical. "O banco faliu. No  que estava certo?", conta. Lelys s vezes entrava no palco de moto, a exemplo de Rob Halford, cantor do furioso grupo de heavy metal Judas Priest. "Eles tm uma pegada de ax", diz o baiano. Criou personagens como o Salvador Dalino e o Cabralino (inspirados por Salvador Dal e Pedro lvares Cabral). Tal como o  o Tchan, sua especialidade so as letras sexuais, quer dizer, sensuais. Hoje em carreira-solo, lanou Vou Te Rebocar, com uma letra de duplo sentido sobre um guincho de carro. 
     O esgotamento da frmula do disco ao vivo, o principal carto de visita dos artistas de ax music, fez com que o movimento perdesse o prestgio no fim dos anos 1990. Ivete Sangalo at manteve a frmula, levando-a ao cansao: em dez anos, ela lanou quatro DVDs ao vivo. O ax acabou fagocitado por outros gneros. O sertanejo universitrio, por exemplo, tem como ingrediente uma bem azeitada percusso baiana. Mas, para alm do esfriamento comercial, o movimento ainda se mostra criativamente fecundo. A Orkestra Rumpilezz, que faz um envenenado afrojazz baiano, tem como lder o saxofonista e maestro Letieres Leite, que tocou na banda de Ivete Sangalo. J Roberto Barreto, o virtuose guitarrista do BaianaSystem (grupo que promove uma criativa mistura de reggae, samba e ritmos psicodlicos jamaicanos), integrou o Timbalada, projeto de Carlinhos Brown. Embora j no seja a ponta de lana do mercado, o ax ainda levanta poeira. Quem diz  Jonga Cunha, ex-scio da Banda Eva e atual integrante do Alavont: "Pode ser num boteco do Pelourinho ou na casa de Nizan Guanaes. Depois da dcima cerveja, todo mundo canta msica baiana". 


5#2 CINEMA  SANGUE, SUOR E RITMO
Em Whiplash, um diretor estreante consegue fazer com que tudo  atores, roteiro, msica  atinja ao mesmo tempo o mximo de potncia e de preciso 
ISABELA BOSCOV 

     Durou 27 anos o recorde de abuso psicolgico e verbal estabelecido por R. Lee Ermey em Nascido para Matar, de Stanley Kubrick. Mas ele  gloriosamente quebrado por J.K. Simmons em Whiplash  Em Busca da Perfeio (Whiplash, Estados Unidos, 2014), que estreia na quinta-feira 8 no pas. No papel de Terence Fletcher, professor do mais prestigiado conservatrio musical americano, Simmons no  capaz s de torrentes paralisantes de insultos, como o sargento de Nascido para Matar, ele opera tambm nos modos sedutor e perverso. Cria ocasionais zonas de conforto para seus alunos que logo sero arrasadas em bombardeios obliterantes; e garimpa informaes ntimas sobre eles com as quais causar o mximo de dano em bombardeios cirrgicos. No existe terreno firme em torno de Fletcher  e, graas  performance de J.K. Simmons, composta no s com grande inteligncia mas tambm com um jogo intrincado de gestos mnimos e detonaes imprevistas, mergulhar nas duas horas do filme  compartilhar com o jovem protagonista Andrew Neiman (o tambm ele excepcional Miles Teller) a sensao de nunca ter onde pisar. 
     Atrair a ateno de Fletcher, band-leader do principal conjunto de jazz do Conservatrio Shaffer, uma verso ficcional da Juilliard School (veja o texto na pg. ao lado),  o objetivo de cada um dos alunos da escola. E, pela amostra que se tem na cena inicial, na qual Andrew detona a bateria ao estilo do lendrio Buddy Rich, ele  plenamente merecedor da vaga que Fletcher lhe oferece no grupo  e que ento a todo instante ameaa tirar-lhe. 
     Entre todas as excelentes escolhas como diretor e roteirista do estreante Damien Chazelle, de 29 anos, a mais decisiva e consagradora  colocar a bateria no centro do filme, em vez dos mais sedutores metais: na onda fabulosamente inovadora que varreu o jazz dos anos 30 aos 70 ela no  um mero instrumento de acompanhamento ou de base.  o motor de propulso verdadeiro das bandas, ao mesmo tempo um metrnomo, uma usina de fora e uma catalisadora  ou, dependendo da pea que se toca, uma tirana. Como nas duas canes mais executadas no filme, Caravan, o Standard celebrizado por Duke Ellington, e a Whiplash de Hank Levy, um estudo em tempos virtualmente inexecutveis. A glria na bateria jazzstica  para conhecedores, no a glria mais chamativa do trompete ou do saxofone  e o desprezo pela opinio de qualquer um que considere desqualificado para julg-lo  uma parte fundamental da obsesso de Andrew. Na lgica do filme, portanto, a bateria  de fato o nico instrumento que Chazelle poderia ter dado ao seu protagonista. 
     A combinao singular de fria e preciso do instrumento dita ainda, em Whiplash, toda a estrutura do filme e o seu alcance dramtico. A bateria  tanto mais empolgante quanto mais lgico e definido (e tambm mais surpreendente) for o contraste entre os momentos de exploso e os de concentrao, ou entre as etapas de variao e retomada de seus tempos. O ritmo imposto por Chazelle mimetiza essas oposies  perfeio e empurra a narrativa com um mpeto irresistvel; da mesma forma, essa potncia e essa exatido so a matria-prima de que J.K. Simmons e Miles Teller moldam Fletcher e Andrew (Teller, alis, treinou bateria at ficar com os dedos e a palma das mos em carne viva, o que, se no foi suficiente para fazer dele um msico do calibre de seu personagem, o torna ao menos perfeitamente crvel como instrumentista). E, a cada cena de Andrew em ao com suas baquetas, o diretor vai tambm alargando os conceitos da plateia  por que, afinal,  to importante o padro impossvel de ortodoxia musical que Fletcher cobra de Andrew, se ele no parece deixar espao para nenhuma expresso pessoal? Na vulcnica sequncia final do filme, Chazelle responde a essa pergunta  e expande para muito alm do molde habitual a narrativa clssica do protagonista que persegue a excelncia a qualquer custo. Para certos talentos, essa  mesmo a nica alternativa: ou se alcana absolutamente tudo, ou no se ter conquistado rigorosamente nada. 

A PEDAGOGIA DO INSULTO 
Criada em 1905 com o nome de Instituto de Arte Musical, a Juilliard School of Arts  uma espcie de ISO 9001 do showbiz mundial - um reconhecido selo de distino e qualidade. Pela escola - que hoje agrega tambm aulas de dana e teatro - passaram, entre outros, o violoncelista Yo-Yo Ma e o violinista Itzhak Perlman, alm dos trompetistas Miles Davis e Wynton Marsalis. O nvel de exigncia  alto e algumas cobranas so, sim, muito duras. Patti LuPone, diva dos palcos da Broadway, lembra na autobiografia que um dos diretores da escola apertou o seu pescoo porque a dico ruim da postulante a atriz estaria "arruinando" sua pea. Um estudante da escola relatou a VEJA que, num passado no muito distante, um professor de trombone advertiu seu aluno de que se ele no acertasse determinada nota poderia voltar para a Polnia, seu pas natal. O aluno criticado saiu chorando pelos corredores - mas aparentemente atendeu s exigncias do professor, pois continuou na Juilliard. Insultos "encorajadores" no so privilgio da escola de Nova York. A Berklee College of Music, de Boston, tem seu quinho de carrascos. Um deles passa carraspanas muito pessoais, segundo relata um aluno: "Pobre da sua namorada, se voc faz sexo com ela como toca esse instrumento". Curiosamente, esses professores brutais costumam ser os mais procurados pelos alunos. No  por outra razo que as vagas nessas escolas so disputadas:  onde se exige o mximo, com o mximo rigor.
SRGIO MARTINS


5#3 LIVROS  RUNA IDEOLGICA
No fica pedra sobre pedra da obra dos intelectuais esquerdistas analisados nos ensaios do filsofo ingls Roger Scruton
EDUARDO WOLF

     No fim da dcada de 70, enquanto o grupo comunista Khmer Vermelho assassinava sistemtica e brutalmente a populao do Camboja, intelectuais e acadmicos das principais democracias ocidentais louvavam as virtudes de Pol Pot e seus seguidores. O celebrado linguista americano Noam Chomsky ridicularizou os relatos de massacres perpetrados pelo grupo  e, nas dcadas seguintes, continuou afirmando que seu julgamento fora "acertado diante das informaes disponveis". A disposio de tudo tolerar em nome do combate ao capitalismo seguia firme no fim dos anos 1980: depois da derrubada do Muro de Berlim, no foram poucas as vozes da esquerda que lamentaram o desaparecimento de uma "alternativa ao capitalismo". Pouco importava que a alternativa fosse um Estado totalitrio. Foi nesse contexto que o filsofo ingls Roger Scruton escreveu os ensaios que compem Pensadores da Nova Esquerda (traduo de Felipe Garrafiel Pimentel;  Realizaes; 336 pginas; 54,90 reais), lanado em 1985 mas s agora traduzido no Brasil. Publicados originalmente na Salisbury Review, revista conservadora que Scruton editou, os textos examinam catorze pensadores identificados com o que se convencionou chamar de "nova esquerda". 
     Alguns dos autores discutidos por Scruton, como o psiquiatra R.D. Laing, exerceram pouco impacto fora do mundo anglo-saxo. Outros tantos, como o economista americano J.K. Galbraith, tiverem seu prestgio reduzido depois da morte. Ainda assim, Scruton apresenta um panorama coerente do pensamento de intelectuais  esquerda no espectro poltico, sejam eles de corte liberal e no marxista, como o filsofo e constitucionalista americano Ronald Dworkin, sejam herdeiros de tradies mais prximas a alguma variedade de marxismo, como o historiador britnico Perry Anderson ou o filsofo alemo Jrgen Habermas. No bastasse esse mrito intelectual nada desprezvel  conferir certa unidade no artificial a autores to distintos , o livro carrega uma triste marca de atualidade: um bom punhado das ideias e dos autores esquerdistas nele examinados ainda anima um estilo de pensamento anmico de contedo e vitaminado de doutrina que segue dominante nas reas de humanidades da academia e na vida intelectual no Brasil. 
     Scruton documenta com preciso alguns pressupostos comuns da esquerda, velha ou nova. Ao analisar o historiador marxista britnico E.P. Thompson, ainda que reconhecendo as virtudes de sua obra clssica, A Formao da Classe Operria Inglesa, Scruton registra fartamente a convico de Thompson de que estar do lado da luta socialista  uma atitude "moralmente irreprochvel". Esse veneno se estender a quase todos os intelectuais examinados no livro: encontraremos no italiano Antonio Gramsci a tese segundo a qual o intelectual de esquerda, "verdadeiro agente da revoluo, tem o direito de legislar sobre o homem comum". Essa linha de pensamento explica tanto o orgulho com que o crtico literrio hngaro Gyrgy Lukcs contemplava, j em idade avanada, seu feito "heroico" de ter ajudado a varrer a universidade hngara de professores no comunistas quanto a abjeo do francs Jean-Paul Sartre, que somente no fim de seus dias admitiu abertamente ter mentido sobre a Unio Sovitica e as atrocidades que comprovou para alm de qualquer dvida quando l esteve em 1954. A fora messinica da doutrina conduz alguns desses intelectuais ao dio  Lukcs afirma que  "impossvel ser humano na sociedade burguesa", o que explica a facilidade com que desconsiderava os cadveres acumulados na "construo do socialismo"  e  permanente falsificao da realidade. H um constante desprezo s evidncias empricas, mesmo nos autores claramente dissociados das vertentes autoritrias da esquerda, como Dworkin e Galbraith  poucos chegando,  claro, s raias do delrio potico em seu dio  "sociedade burguesa" como o francs Michel Foucault. 
     Algo permaneceu de todo o alarde em torno das ideias desses pensadores? A impiedosa mas sbria anlise de Scruton mostra que sobreviveu apenas aquilo que, nesses autores, pouco ou nada devia a seu esquerdismo (especialmente o de tipo marxista). O resto so as runas da soberba moral fornecida pela ideologia, do desprezo pelas instituies democrticas e do fascnio pela violncia.  dessas runas que, vez ou outra, ouvimos os gritos dos doutrinadores repletos de dio autoritrio contra a democracia "burguesa", as liberdades individuais e o inteiro sistema capitalista. Mas  tambm nelas que se escondem os milhes de cadveres que esses mesmos doutrinadores, em pocas passadas, ajudaram a ocultar. Sobre esses mortos, o intelectual da nova esquerda no deixou mais do que um terrvel e constrangedor silncio. 


5#4 VEJA RECOMENDA
BLU-RAY 
A CRUZ DE FERRO (CROSS OF IRON, INGLATERRA/ALEMANHA, 1977. BROOK FILM/LONDON)
 Conhecido por westerns como Meu dio Ser Sua Herana e Pat Garrett & Billy the Kid, o americano Sam Peckinpah (1925-1984) tambm dirigiu este drama de guerra, sobre a tenso entre soldados e oficiais do Exrcito alemo s vsperas da derrota no front sovitico. Em 1943, o sargento Steiner (James Coburn)  condecorado por bravura depois de comandar uma ao bem-sucedida contra o inimigo, mas em seguida  informado de que seu esquadro agora est sob as ordens do capito Stransky (Maximilian Schell), um aristocrata pusilnime. Valendo-se do que acredita ser seu privilgio de classe, o capito covarde assume uma pequena vitria sobre os soviticos  liderada, na verdade, por um oficial morto em combate  e por isso exige receber a Cruz de Ferro. Principal testemunha no processo de condecorao, Steiner se recusa a participar da farsa, enquanto o superior engendra uma vingana capaz de destruir a todos. O embate entre a atuao cool de Coburn e a histeria alucinada de Schell mantm a temperatura blica da ao tanto quanto as sequncias de violncia que so a marca registrada do diretor. 

TELEVISO
DOWNTON ABBEY  QUINTA TEMPORADA (ESTREIA EM 10 DE JANEIRO, S 22H30, NO GNT)
 Depois de uma quarta temporada menos que morna, os acontecimentos na senhorial propriedade britnica da famlia Crawley voltam  antiga  e eficiente  frmula de um bom novelo.  1924, e novas ideias e costumes chegam para abalar os valores conservadores tanto de Lord Grantham (Hugh Bonneville) quanto do impecvel mordomo Carson (Jim Carter).  procura do marido ideal, Lady Mary (Michelle Dockery) experimenta as ousadias da cartilha feminista, e sua irm, Lady Edith (Laura Carmichael), sofre as consequncias de um mau passo. H tambm suspeitas de adultrio e assassinato, e preconceitos de classe a granel para incendiar as refeies e festas que se sucedem  alm de um segredo do passado capaz de assombrar a deliciosamente insuportvel Lady Violet (Maggie Smith), que prossegue desfiando seu repertrio de aforismos sulfricos. A velha dama  uma das principais razes para acompanhar esta crnica de poca convencional vestida com pompa e circunstncia.

LIVRO
OBRAS COMPLETAS 1940-1958, DE ADOLFO BIOY CASARES (VRIOS TRADUTORES; GLOBO; 752 PAGINAS; 69,90 REAIS)
 O nome do argentino Adolfo Bioy Casares (1914-1999) est em grande medida vinculado ao do seu amigo Jorge Luis Borges (1899-1986). A editora Globo, alis, tambm est reeditando trs livros que os dois escreveram a quatro mos e assinaram sob os pseudnimos Surez Lynch e Bustos Domecq. Bioy Casares, no entanto,  um talento narrativo que deve ser apreciado por seus mritos muito prprios. Como Borges, ele tinha um pendor particular para a literatura fantstica, mas com uma dico prpria, talvez mais sbria que a do companheiro. Este primeiro volume de obras completas  outros dois devem se seguir  compila seis livros do autor e vrios textos esparsos. A primeira pea  A Inveno de Morel, de 1940  a antolgica histria, com cores de fico cientfica, de uma ilha onde uma prodigiosa mquina recria e repete, sem parar, a vida de habitantes que morreram h muito tempo. O volume ainda  enriquecido com fotos e notas sobre os textos.

OS MAIS VENDIDOS DE 2014 VEJA
 Lanado no Brasil em 2012, A Culpa  das Estrelas, do americano John Green, j vendeu cerca de 2 milhes de exemplares  mas foi s em 2014, com o empurrozinho da estreia de sua adaptao cinematogrfica, que este sensvel drama sobre adolescentes que sofrem de cncer chegou  liderana dos livros mais vendidos. Os outros trs ttulos de Green tambm estiveram no ano passado entre as dez obras de fico mais vendidas, gnero em que predominam autores que escrevem para o leitor jovem. Na categoria no fico, o bispo Edir Macedo, da Igreja Universal, emplaca seu terceiro ano como o autor mais vendido do pas. A terceira parte de suas memrias, Nada a Perder, chegou a 580.000 exemplares vendidos s no ano passado. Esse desempenho  impulsionado por grandes eventos promovidos pela igreja. E a lista de autoajuda, depois de quatro anos com o padre Marcelo Rossi na liderana, volta a ser encabeada por um veterano do gnero, Augusto Cury, com Ansiedade. 

DISCO
AMAR AMANHECER, CLUDIO ZOLI (LAB 344)
 O cantor e guitarrista carioca Cludio Zoli tocou com Cassiano, uma das lendas da msica negra brasileira, e tem composies gravadas por Marina Lima ( Francesa) e Elba Ramalho (Felicidade Urgente). Mas  lembrado sobretudo por uma cano  Noite do Prazer, sucesso de 1983 do grupo Brylho (aquela do "tocando B.B. King sem parar", que muitos cantam, equivocadamente, como "trocando de biquini"). Amar Amanhecer, o primeiro disco de inditas de Zoli em onze anos, prova que ele no  compositor de uma s cano. O lbum tem, isto sim, uma nica inspirao: Carol, a mulher do cantor. A ela so dedicadas baladas, sambas e canes danantes  a melhor delas  a radiofnica Paris a So Paulo. Zoli  um cantor expressivo e um guitarrista "bom de brao"  seu estilo deixa transparecer influncias que vo do fraseado limpo de George Benson (presentes em Dia de Jogo e Olhos Verdes) s distores de Ernie Isley, dos Isley Brothers (Me Faz Feliz e Sem Pressa). Amar Amanhecer tem muitas canes que merecem ser ouvidas  e cantadas com a letra correta.


5#5 OS LIVROS MAIS VENDIDOS
FICO
1- A Culpa  das Estrelas. John Green. INTRNSECA 
2- Se Eu Ficar. Gayle Forman. Novo Conceito 
3- Quem  Voc, Alasca? John Green. INTRNSECA
4- Cidades de Papel. John Green. INTRNSECA 
5- A Menina que Roubava Livros. Markus Zusak. INTRNSECA
6- O Pequeno Prncipe. Antoine de Saint-Exupry. AGIR
7- Divergente. Veronica Roth. ROCCO
8- O Sangue do Olimpo. Rick Riordan. INTRNSECA 
9- Convergente. Veronica Roth. ROCCO
10- O Teorema de Katherine. John Green. INTRNSECA

NO FICO
1- Nada a Perder 3. Edir Macedo. PLANETA
2- Nada a Perder 2. Edir Macedo. PLANETA
3- Demi Lovato  365 Dias do Ano. Demi Lovato. BEST SELLER
4- Sonho Grande. Cristiane Correa. PRIMEIRA PESSOA
5- Assassinato de Reputaes. Romeu Tuma Jr. E Claudio Tognoli. TOPBOOKS
6- 1889. Laurentino Gomes. GLOBO
7- Aparecida. Rodrigo Alvarez. GLOBO 
8- O Dirio de Anne Frank. Anne Frank. RECORD 
9- Eu Sou Malala. Malala Yousafzai. COMPANHIA DAS LETRAS
10- O Livro da Psicologia. Nigel Benson. GLOBO

AUTOAJUDA E ESOTERISMO
1- Ansiedade. Augusto Cury. SARAIVA
2- No Se Apega, No. Isabela Freitas. INTRNSECA
3- Kairs. Padre Marcelo Rossi. PRINCIPIUM
4- Casamento Blindado. Renato e Cristiane Cardoso. THOMAS NELSON BRASIL
5- Pais Inteligentes Formam Sucessores, No Herdeiros. Augusto Cury. SARAIVA 
6- O Monge e o Executivo. James Hunter. SEXTANTE
7- Eu No Consigo Emagrecer. Pierre Dukan. BEST SELLER
8- Foco. Daniel Goleman. OBJETIVA
9- De Volta ao Mosteiro. James Hunter. SEXTANTE 
10- Eu me Chamo Antnio. Pedro Gabriel. INTRNSECA 


5#6 ROBERTO POMPEU DE TOLEDO  FELIZ ANO NOVO
     Acabou o Natal, foi-se o Ano-Novo. Eis-nos no ponto zero na corrida rumo ao prximo Natal e ao prximo Ano-Novo. Alguns no chegaro l (aos casos previsveis se somaro os surpreendentes). Outros chegaro exangues. Todos chegaro mais velhos. Mas haver os que, mais bravos, ou talvez mais ingnuos, chegaro cheios de gs e prometero a si mesmos encetar com mais gs ainda a corrida rumo ao Natal e ao Ano-Novo seguintes, ao fim dos quais, mais animados ainda, partiro em direo a mais Natais e mais Anos-Novos. Algum a explica essa corrida de doidos? O tempo no cansa de nos desafiar com seu mistrio. 
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     Em  Sombra das Raparigas em Flor, o segundo dos sete volumes de Em Busca do Tempo Perdido, Marcel Proust faz o narrador da histria enviar uma carta de Ano-Novo a Gilberte, garota pela qual estava enamorado, anunciando o propsito de deixar de lado as decepes do ano velho em favor de "uma amizade nova, to slida que ningum a destruiria". O dia 1 de janeiro chegou com um vento suave e mido. Prossegue o narrador: "Aquele tempo me era  bastante conhecido; tive a sensao e o pressentimento de que aquele dia do Ano-Novo no era um dia diferente dos demais, no era o primeiro dia de um mundo novo em que eu poderia, com sorte, refazer minha amizade com Gilberte como no tempo da Criao, como se no existisse o passado". 
     Concluso: o primeiro dia do ano "no sabia que o chamvamos de dia do Ano-Novo". Tanto que ao crepsculo, junto com o vento to conhecido que soprava na Avenida Champs-lyses, reapareceu "a matria eterna e comum, a umidade familiar, a ignorante fluidez dos antigos dias". 
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     Um amigo ingls do colunista achava curioso que em portugus a mesma palavra designava tempo no sentido de clima (weather, em ingls)  e no sentido de durao, de passagem das horas (time). O mesmo ocorre em francs e nas demais lnguas latinas. No trecho citado, Proust d como prova de que o "tempo" (passagem das horas) no mudara, apesar de o calendrio anunciar o ano novo, sinais exteriores como o vento e a umidade familiares ("tempo", no sentido de clima). 
     Confundir um sentido da palavra com o outro  uma esperteza que tenta dar materialidade ao que  invisvel, impalpvel, inspido e inodoro. O sol, o vento, o calor ou o frio, atributos do tempo no sentido de clima, como que vestem o fantasma imperceptvel que  o tempo no sentido de durao. O truque  semelhante ao do calendrio, que tenta aprisionar em dias, semanas, meses e anos algo irredutvel a qualquer priso material como o tempo. Quando fixado na folhinha ou no relgio, portanto suscetvel de ser visto, classificado e medido, o tempo perde seu assustador mistrio. Igualmente quando revestido de sol, vento ou chuva, qualidades cujos efeitos podem ser observados e sentidos na pele.  
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     Thomas Mann comea o stimo captulo de A Montanha Mgica, romance em que o tempo tem papel de protagonista, com a indagao seguinte: "Pode-se narrar o tempo, o prprio tempo, o tempo como tal e em si?" Ele prprio responde que no. "Uma histria que rezasse: 'O tempo decorria, escoava-se, seguia o seu curso', e assim por diante, nenhuma pessoa s poderia considerar histria." A narrativa precisa de fatos. Uma vez encadeados os fatos, a narrativa "d um contedo ao tempo", "enche-o de uma forma decente", "assinala-o", e faz com que "tenha algum valor prprio". 
     Eis outra tentativa de driblar o mistrio do tempo: assinalando-o com os fatos. O autor alemo prossegue enumerando os fatos da narrativa que o ocupa. J ns outros damos sentido ao tempo organizando os fatos de nossa histria pessoal ou familiar, da histria do nosso pas ou do mundo, elaborando retrospectivas do ano ou comparando os fatos de um ano e outro. Os anos se transmudam nos fatos contidos dentro deles. 
     Ha ha, te pegamos, tempo! Viraste uma sucesso frentica de conflitos, epopeias, anedotas. O tempo no deixa de soar algo disparatado e tolo, neste formato. Em todo caso perde o carter assustador do indiferente fluxo que se sabe l de onde veio e sabe-se l para onde vai. 


